terça-feira

Recanto de mim

No meu canto, absorvo-me da minha própria vida e deixo que o meu pensamento voe solto , cavalgue as estrelas e brinque com a lua. Do interior de mim mesmo , que espreito no meu cantinho favorito , envolto pela luz suave de velas perfumadas , aquilo que eu sou , aquilo que eu fui e que ainda espero ser. Encontro-me no meio do nada , nas veias da natureza , onde pertenço e me dou , no meio do nada que a mente traz , livre , solta , nas madrugadas.
Não quero que a alma se perca , nas vielas da minha introspecção que nasce da calma que me invade no seio do meu sonho acordado , onde me interrogo e aguardo , perdido no meio do nada que se torna tão real , tão intenso , que eu não sei se me pertenço se ou nada que me possui , no vazio da minha mente , conquistado com esforço de espantar a realidade.
Espreguiço-me como um gato , sinto os músculos que se contraem e se entregam à volúpia de um momento imortal, que fica ali parado , no azul cansado do meu olhar.
Quem sou , porque caminho , para onde vou , perco-me extasiado perante as imensas possibilidades de me dividir em muitos eu e povoar com todos eles a imensidão de muitas vidas.
Enrosco-me no seio do silêncio , absorvo o aroma de Genciana que sai das velas que ardem e iluminam a minha memória , o meu momento.
Conheço-me e desconheço-me , suspiro num lamento que se torna um gemido preso na languidez que me possui.
Interrogo-me perante mim mesmo e faço-me perguntas para as quais não tenho respostas e perco-me nas respostas que dei a perguntas que nunca me foram feitas.
Tenho medo das perguntas que me assaltam , das respostas que me saem dos lábios, como pirilampo brincalhões que iluminam a minha noite de cansaço .
As minhas mãos fecham-se agarrando a brisa , o momento , a hora em que me dou a mim mesmo e me possuo de uma forma só minha e garanto juras de fidelidade plena ao momento em que eu me encontro e me reencontro comigo mesmo.
Estou aqui inteiro , repleto de certezas que nascem das incertezas que um dia me assaltaram e porque me vencem a solidão , ficaram.
E no meio da minha companhia intensa e complexa , que sou eu inteiro , no âmago de mim mesmo , ouço-me e entendo-me , aceito-me e dou-me , perco e acho-me, rio nas minhas lágrimas e choro nos meus sorrisos.

2 comentários:

driftin' disse...

«Interrogo-me perante mim mesmo e faço-me perguntas para as quais não tenho respostas e perco-me nas respostas que dei a perguntas que nunca me foram feitas.»

...

São essas respostas - aquelas que se amarrotam no vazio das perguntas que não existem!... - que, se calhar, nos obrigam a percorrer a constante lentidão das noites solitárias. Sem memória e, mesmo, sem pirilampos.

São essas respostas que continuam a multiplicar-se pelas próprias sementes do absurdo.

Val disse...

Bom dia Gonçalo!Aqui pensando sobre seu texto.Minha conclusaõ é:Sempre estaremos ao caminho,estar a procura de respostas .Parecendo um buraco sem fim .Tantas interrogações são mais importantes que as respostas, ou seja, ja que cada vez que você fizer uma pergunta vai ser gerada outra nova, as perguntas são mais importantes que as respostas.Beijos com carinho!

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