quarta-feira

Nós e Deus


A minha alma vagueia por entre os livros que estudo e onde me perco na absorção de um conhecimento milenar que pode deixar em mim o que de melhor há, mas que não consegue fazer de mim mais feliz. Perco-me nas ideias que conheço tão bem e bebo de um cálice privilegiado onde a sabedoria e o conhecimento se misturam e trazem até mim, ideias e conceitos , que eu conheço e aprovo , sigo e transmito , mas não me deixam mais feliz.
A minha alma vagueia , no conhecimento pleno do que é o ser humano, das suas limitações e do seu egoísmo , da sua burrice e egocentrismo , da sua politica absoluta do "EU" reinando sobre um Ego que não entende nem se curva perante a existência do outro.
Cria-se um mundo onde cada um se vira para as suas pequenas metas e se dá a si mesmo prioridade sobre todas as coisas. Estamos a caminhar para um mundo , em que se enche a boca para falar do outro , do quanto o entendemos , do decantado amor ao próximo , da preocupação social , mas tudo não passa de teorias mais ou menos papagueadas , tal como se papagueia o Pai Nosso. Por muito que se fale no conceito do outro , esse conceito passa para terceiro plano , porque só o eu importa. Cada um enche-se de razões , fá-las inflar como balões e perante essas razões que a si mesmo outorgam , quem lhes poderá pedir que saiam do seu mundinho e se abram ao outro , ao próximo , esse próximo que é cada vez mais um desconhecido. Estamos a caminhar para um mundo cheio de direitos , onde os deveres só existe, se logo mais ali , esses também se puderem transformar em direitos.
Estamos num mundo cada vez mais divorciado de Deus , mas onde nunca se falou tanto nele como agora.
O ser humano em geral fala de Deus como se seu representante fosse, exigindo e colocando em Deus os deveres a que ele se exime.
Quando há guerras , mortes de crianças ou de adultos , seja do que for , há sempre quem diga , " Não sei como Deus permite...".
Quando uma mulher ou um casal tem filhos e os maltrata , dizem logo com ares doutorais , " Não sei como Deus dá filhos a pessoas destas" ou " Deus não devia dar filhos a pessoas como estas".
Achamos que temos o direito de dizer a Deus o que ele tem ou não que fazer.
E achamos que ele é responsável por tudo o que de mau nos acontece a nós e aos outros , porque é fácil e cómodo colocar a culpa num outro , nem que esse outro seja Deus.
Acontece que Deus nos dotou com um par de mãos para trabalhar , um par de pés para caminhar , um coração para amar e uma cabeça para pensar.
E que com isso nos deu ferramentas suficientes para mudar o mundo e para o fazermos como nós achamos que queremos e temos direito.
Parece-mo-nos com alguém, que tendo a cozinha repleta de alimentos se queixa de fome.
É um pecado não sabermos dar valor ao que temos , nem utilizarmos como tínhamos o dever de fazer.
Se colocamos Deus fora das nossas vidas , com os nossos actos e acções , não temos direito algum de esperar dele ou de pedirmos que ele faça por nós , o que nós nunca fizemos por ninguém.
Muitas vezes nem por nós mesmos. 


terça-feira

Recanto de mim

No meu canto, absorvo-me da minha própria vida e deixo que o meu pensamento voe solto , cavalgue as estrelas e brinque com a lua. Do interior de mim mesmo , que espreito no meu cantinho favorito , envolto pela luz suave de velas perfumadas , aquilo que eu sou , aquilo que eu fui e que ainda espero ser. Encontro-me no meio do nada , nas veias da natureza , onde pertenço e me dou , no meio do nada que a mente traz , livre , solta , nas madrugadas.
Não quero que a alma se perca , nas vielas da minha introspecção que nasce da calma que me invade no seio do meu sonho acordado , onde me interrogo e aguardo , perdido no meio do nada que se torna tão real , tão intenso , que eu não sei se me pertenço se ou nada que me possui , no vazio da minha mente , conquistado com esforço de espantar a realidade.
Espreguiço-me como um gato , sinto os músculos que se contraem e se entregam à volúpia de um momento imortal, que fica ali parado , no azul cansado do meu olhar.
Quem sou , porque caminho , para onde vou , perco-me extasiado perante as imensas possibilidades de me dividir em muitos eu e povoar com todos eles a imensidão de muitas vidas.
Enrosco-me no seio do silêncio , absorvo o aroma de Genciana que sai das velas que ardem e iluminam a minha memória , o meu momento.
Conheço-me e desconheço-me , suspiro num lamento que se torna um gemido preso na languidez que me possui.
Interrogo-me perante mim mesmo e faço-me perguntas para as quais não tenho respostas e perco-me nas respostas que dei a perguntas que nunca me foram feitas.
Tenho medo das perguntas que me assaltam , das respostas que me saem dos lábios, como pirilampo brincalhões que iluminam a minha noite de cansaço .
As minhas mãos fecham-se agarrando a brisa , o momento , a hora em que me dou a mim mesmo e me possuo de uma forma só minha e garanto juras de fidelidade plena ao momento em que eu me encontro e me reencontro comigo mesmo.
Estou aqui inteiro , repleto de certezas que nascem das incertezas que um dia me assaltaram e porque me vencem a solidão , ficaram.
E no meio da minha companhia intensa e complexa , que sou eu inteiro , no âmago de mim mesmo , ouço-me e entendo-me , aceito-me e dou-me , perco e acho-me, rio nas minhas lágrimas e choro nos meus sorrisos.

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