sexta-feira

Insónia

Noites Sem Sono
Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstração de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê...

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto... Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!

Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.

Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exatamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exactamente. Mas não durmo.

Álvaro de Campos

sábado

Eu Sou Assim


Eu vivo assim , tão por dentro de mim
que em mim mesmo me perco
E a descoberto de um sentimento que me ultrapassa
fico de mãos frias 
agarrando os momentos que passam rápido
e me deixam frágil
Eu sou assim complexo
numa simplicidade que me assalta
quando o meu coração entrelaça
na sua simplicidade
as teias de um destino partilhado a dois
Eu sou assim , entregue e observador
enigmático e sonhador
detentor de uma magia
que é feita com os sorrisos de um destino
que finalmente se encontra em mim
Eu sou assim , o deserto no meu oásis
o medo da minha coragem
a verdade da minha suposta mentira
o doce dos meus momentos amargos
Eu sou assim
o sonho de um pesadelo que se foi
o herói do medo que já senti
o caminho pontilhado pelas estrelas
que não vi.
Eu sou assim , o verso e o reverso de mim mesmo
uma vida vivida a esmo
no caminho dos imortais
um amor tão dividido
um sonho tão possuído
uma paixão tão atroz
Eu sou assim
a voz do sonho e da magia
do segredo e da alegria
do riso e do pranto sentido
sou o positivo de mim mesmo
aquele que deixa o amor
o sentimento e a dor
bem ai , dentro de vós...



quinta-feira

Voltei aqui!


E de repente a vontade de regressar aqui , a este blog onde iniciei a minha escrita em blogs. Daqui guardo boas recordações , algumas más , faz parte , mas as boas  são bem mais significativas. Por mais de um ano deixei de escrever aqui , por falta de tempo e de vontade. Mas hoje decidi remodelar o Doce , dar-lhe um ar mais actual , o possível , porque blogs muito despojados não são o meu estilo. Quero retomar a escrita e dar avida a um espaço que tem alguns seguidores e que mesmo tendo estado inactivo um ano , continua a receber visitas diariamente. Principalmente por parte de leitores Brasileiros a quem agradeço o carinho , ainda mais que durante anos a fio o Doce , foi considerado um dos melhores sites Brasileiros.
Sempre o mesmo carinho da parte de um Povo que eu aprendi a amar e de um País que considero um pouquinho meu também.
Esta volta ao Doce lágrima não obedece a qualquer padrão de escrita , como sempre, escrevo uma mixórdia de assuntos, faço dos meus blogs um diário virtual.
Diário esse onde procuro não ofender ninguém , mas onde exponho os assuntos tal e qual os sinto.
Desejo muito que este novo encontro entre mim e os meus leitores seja bom para ambas as partes.
Um grande abraço.

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