segunda-feira

Tenho em mãos uma incumbência que nunca desejei. Continuar este blog é algo que parece muito além das minhas forças. Pelo menos neste momento. Estou a escrever na tentativa vã de não sentir passar o tempo e é horrível como hoje cada minuto tem a duração de uma hora. O tempo não passa. Congelou, estagnou, esta parado. Já perguntei as horas a várias pessoas imaginando que fosse o meu relógio que estivesse a pregar-me partidas. Mas não é, decididamente hoje o tempo não passa. E se não passa o melhor é tentar ignorá-lo. Por isso peguei este portátil, abri este blog e fiquei parada diante de uma folha em branco. Hoje tudo parece em branco, o dia, o futuro, nada parece real ou ao menos consistente. Não tenho muito de que falar aqui, apenas de esperança e de muita dor. Da dor de ver sair do meu abraço um amigo querido, um irmão, para algo que nenhum de nós sabe como vai terminar. Nem sei o que me disse, nem o que respondi, apenas me lembro do olhar profundamente azul onde já vi tanta vez brilhar a malicia, a irreverência e hoje via apenas algo de insondável, uma aceitação crispada na face. É doloroso viver minutos de espera, de agonia, de desolação e inquietação, mas como me disse um confiante e sorridente médico hoje é um dia de renascimento, de trazer de volta aquilo que se estava a perder. Eu quero acreditar na força desse renascer. Nessa esperança que alimenta todos. Muitos dos amigos que têm chegado aos poucos vão rezar na capela, a capela aqui é muito bonita, tem um altar com uma Santa cujo nome nem sei e imensos arranjos de rosas brancas. Num canto, um queimador vai incinerando devagar pedras de incenso que perfumam o ar. A atmosfera é de paz absoluta e de recolhimento. O silêncio só é quebrado pelo choro de alguém que nem quis ver quem é, não consegui ficar lá. Não consigo rezar, não consigo elevar o meu pensamento a Deus, não sou capaz. Prefiro ficar aqui neste quarto, com uma cama recentemente feita que me traz a esperança de brevemente a ver ocupada, com uma janela enorme que deixa ver os carros lá em baixo e as pessoas que circulam a pé, felizes, rindo, que não imaginam sequer o drama que se vive nestas paredes, o nosso e o de tantas outras pessoas aqui. Estou com o portátil que não é meu, aquele com que o meu amigo escreve, aqui neste teclado de onde sai magia em formas de palavras. Se parar e prestar atenção quase posso ouvir ainda o ruido das teclas enquanto ele mexe cadenciadamente os dedos e faz surgir frases que só ele sabe como dar vida. Esta secretaria que colocaram aqui, com objectos espalhados a esmo, uma jarra com flores, perfumadas, que espalham um aroma doce que me traz um sorriso e muitas lembranças de tardes passadas na companhia dele e dos meus filhos, do meu marido, quando eramos felizes e jamais imaginavamos que algo assim podia acontecer. Olho cada um destes objectos espalhados aqui e não consigo deixar de sorrir perante a habitual desarrumação. Dois telemoveis que não param de emitir o ruido da chegada de sms, canetas, o perfume, algumas folhas rabiscadas, tudo me fala do meu amigo. Do maior de todos os que já tive.
Há pouco remexendo na minha mala que parece a caverna de Aladino, dentro de uma das incontaveis bolsas, encontrei um bilhete que diz: Se quiseres jantar outra vez e estiveres com vontade de conversar vai ter comigo ao restaurante do Hotel.
Deve ter sido durante uma das nossas viagens, nem sei se fui a esse jantar mas o bilhete fez-me sorrir. Fizemos tantas viagens juntos a quatro, eu e meu marido, o meu amigo e a namorada que tinha na época. Estavamos na Alemanha quando a Lady Di faleceu naquele lamentável acidente. Era bastante tarde e eu estava a dormir no meu quarto. O Gonçalo bateu à porta do quarto imensamente triste para dizer que tinha visto na TV a noticia da morte da Princesa. Pessoa que ele começou por detestar pela futilidade e no fim admirava pela força e coragem. É muito bom ter tanta recordação, ajuda a encher o tempo que teima em passar lentamente, vincando bem na alma cada segundo. Para lá daquela porta cerrada, apenas uma incógnita, ninguém sai, ninguém a quem possa interpelar, fazer perguntas. Para lá da porta que se fechou só o silêncio cortado a espaços pela vai e vem do elevador. Mas das pessoas que fazem parte daquela equipa de cirurgia ninguém aparece. É muito cedo ainda, racionalmente sei. Infelizmente esse racionalismo não me ajuda em nada, neste momento só me traz um pouco de paz ficar aqui. Quero dizer a todos os amigos que as noticias que tiver divulgarei aqui consoante for. Também estarei online quando me for possível para responder às perguntas que fizerem. Os e-mails dirigidos à caixa pessoal do Gonçalo serão respondidos por uma outra pessoa que ele escolheu. Vamos acreditar que esta tarde não será eterna, daqui a pouco o relogio acorda e entra no ritmo normal. E vamos manter o sorriso, como ele costuma dizer: (quando se quer acreditar o mundo cobre-se todo de azul).


Paula Santos

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