sexta-feira

Hoje estou com um pouco mais de tempo livre. Relendo muitos dos e-mails que recebi, em quase todos me vem uma pergunta que também me deixa a pensar. Como é o Gonçalo? Sinceramente eu gostava de responder mas não sei. Eu acho que todos os dias conheço um Gonçalo diferente. Muitas pessoas pensam que somos amigos de infância, não é verdade. Eu conheci-o na Universidade onde ambos nos formamos. Eramos os unicos Portugueses e isso criou um elo de aproximação. Ele era um miudo giro, tipo galã e dessa faceta eu não gostava, mas era também um menino, carinhoso, educado. Aos poucos fomos ficando amigos e de repente sem que eu me desse conta , passei de amiga a confidente. Era eu que ouvias as aventuras e desventuras pelas quais ele passava. No ultimo ano de faculdade ele namorava umas sete ou oito colegas ao mesmo tempo sem saberem umas das outras. Ainda hoje estou para saber como conseguiu fazer essa ginástica para que nenhuma desconfiasse. Nem sei como ele se conseguiu formar, mas conseguiu e com facilidade. Sempre o conheci inteligente, sensível e com uma grande intuição. Conheço dele muitas facetas, essa de namorador, que entretando já lhe passou mais, normal, amadureceu. Conheci um Gonçalo filho exemplar, a mãe dele , quando a conheci já era uma senhora não muito jovem, mas era lindissima, fazia justiça à mistura de nacionalidades que se cruzavam na sua genealogia. Apesar de não ser jovem era belissima, eu sentia-me um patinho feio junto dela, creio que o Gonçalo publicou uma foto dela neste blog. Mãe e filho amavam-se. Ela sofria de uma doença que lhe dificultava os movimentos e a imagem que guardo dela, é sentada numa poltrona, no jardim de inverno a ler revistas ou a bordar. Quando chegava da rua, o Gonçalo corria para a mãe, ajoelhava-se no chão e beijava-lhe as mãos com um carinho que me tocava, depois deitava a cabeça no colo dela, e ficava assim um bom bocado. Esse é um dos momentos mais ternos que recordo dele. A par com a ternura vem a irreverência. Já vi o Gonçalo fazer as piores quebras de protocolo em festas in e sem sequer sorrir, mas fazendo rir todos os presentes. As suas respostas já se tornaram parte do historial humoristíco de quem convive com ele de perto. A par com isso vem a discrição, por incrível que pareça. No Brasil não tanto, pela força das circunstâncias, mas em Portugal vai para o repouso do guerreiro como chama à uma das suas casas onde quase sempre esta e isola-se, poucos são os que acedem até ele. Há tanta coisa que eu podia falar, mas nenhuma delas o define. Há o gonçalo apaixonado que quando ama é capaz dos maiores exageros em nome desse amor. Com a alma sensível que tem parece que tudo nele tem uma escala superior à media. O homem que é capaz de amar apaixonadamente, até à loucura. O homem que se fere com extrema facilidade e que quando ferido assemelha-se a um ouriço. Fecha-se e lança espinhos para tudo quanto é sitio. O homem orgulhoso, que quando se sente ferido ou desafiado prefere morrer a vergar, que sofre o diabo mas não cede um passo daquilo que ele acha ser o respeito pela sua honra. O homem teimoso que exaspera qualquer um quando resolve teimar que pedra é pau. O homem -menino, brincalhão, que nada com as crianças da familia e que na praia que frequenta em Espanha deixa que todas as crianças o enterrem na areia, que faz castelos com elas e no final compra gelados para todos. O homem arrogante que quando picado na sua honra é capaz de responder violentamente, violência verbal. O homem honesto, leal aos amigos, o homem um tanto inseguro, que teme sempre que o amem por motivos menos claros. O homem que pode ser frio como o gelo ou terno como um menino. Não tenho maneira de o definir. O homem com grande noção de clã familiar, que ama a familia e a considera um valor a preservar. O homem que adora cavalgar, nadar e dançar, mas que também tem alguns conceitos bem moralistas. Eu podia passar a tarde toda a escrever sobre esse homem e não ia classificá-lo em nenhum padrão. O homem que neste ultimo ano, principalmente sofreu o inimaginável e mesmo assim sempre tem uma palavra amiga para quem o procura. Ele tem um dom singular, transmite confiança e paz a quem fala com ele. Seja pessoalmente seja pela net, ou por qualquer outra forma. Neste ultimo internamento que está a decorrer houveram episódios fantasticos, uns sentimentais outros hilariantes. No dia da cirurgia, eu, o meu marido, e alguns amigos, para além de um familiar estavamos com ele. Ficamos sentados numa sala, junto ao elevador que conduz ao piso onde esta o bloco de cirurgia. Ele ficou sentado com o noteboock, despedindo-se de alguns amigos pela net. Nessa altura e para quem não sabe ele não falava , por motivos devidos à doença, tinha deixado de falar um tempo antes, então quando o médico o chamou, ele fechou o noteboock e veio ter connosco. A cada um de nós entregou uma folha escrita com um poema lindo e umas notas pessoais. Os 2 neuros que fizeram a cirurgia desceram até a sala e falaram connosco um pouco. Quando nos despedimos dele, de repente nem percebi como, os dois médicos e o Gonçalo abraçaram-se mutuamente e havia lagrimas nos olhos dos três. Foi um momento que ficou para sempre registado e ficara para sempre na minha alma. Ali não havia médicos e paciente, mas sim 3 amigos que se abraçavam e faziam um pacto de amizade, confiança e entreajuda. Quando terminou o abraço, foram para o elevador sem que o Gonçalo voltasse a olhar-nos, como se tivesse medo de nos olhar e fraquejar. Houveram também momentos de riso. A recuperação é um tanto dolorosa e o Gonçalo teme e odeia a dor fisica. Nestes primeiros dias e como consequência da intervenção ficou sem ouvir e sem falar. Não se trata de um dano permanente e é um quadro reversível, mas dificil para ele. Ele comunica-se connosco atravez da escrita. Uma tarde destas um dos médicos, começou a falar com ele, (escrevendo) e numa determinada etapa da conversa, perguntou:- Doutor, o Senhor tem namorada?
Ele estava com dores e visivelmente tenso e escreveu de resposta:- Douror, e que tem o Senhor com isso, acaso é gay?
O medico explodiu numa gargalhada e explicou os motivos da pergunta que não vêm ao caso.
Ontem ele não queria comer nada e eu levei umas bananas, fruta que ele adora, na tentativa de o fazer ingerir alguma coisa. Tentativa falhada devo admitir. Hoje ele continuava com as bananas na mesinha de cabeceira e passou pelo quarto dele um médico que é assumidamente gay. O gonçalo pegou numa banana e acrescentou um biljhetinho que dizia:- Doutor, ofereço-lhe a sua fruta preferida.
O médico leu o bilhete, comeu calmamente a banana e no fim, escreveu:- Doutor, não é esta a minha fruta preferida, mas come-se...
Claro que quem estava no quarto riu.
Sei que não respondi à pergunta de como é o Gonçalo, nem eu sei responder e jamais saberei. O gonçalo é tudo isto que escrevi aqui e o resto que nem sei como escrever. Para mim é um amigo querido, que apesar de ser da minha idade amo como a um filho. Marquei férias e desisti delas para estar aqui com ele e não me arrependo. A minha mãe faleceu em Novembro do ano passado. Eu fiquei péssima e ele sabia. Nessa altura ele estava no Brasil e para além de estar doente estava com a vida pessoal muito conturbada, mesmo assim, quando podia, normalmente por volta das oito horas da noite em Portugal, eu entrava na net para falar com ele, ele pedia-me para aceitar som, sentava-se ao piano e tocava para mim. Umas musicas que me transmitiam paz e ao mesmo tempo me faziam chorar, ficavamos quase uma hora nisto, depois ele tinha outros compromissos da vida dele, mas aquela hora era preciosa para mim. Posso dizer que o luto pela minha querida mãe foi feito ao piano, por o menino que ela amava tanto como me amava a mim.
Desculpem esta postagem longuissima, fez-me bem desabafar, estes dias não têm sido faceis, estou cansada, tensa, mas feliz por o meu amigo estar estável. Este é o Gonçalo, com defeitos, qualidades e miriades de facetas que se concentram num coração maravilhoso. Ele não passa pela vida de ninguém impunemente, é uma presença marcante e as vidas que ele toca ficam para sempre com a sua marca.
Como diz um amigo nosso ele deita a alma pelos olhos e inunda de amor quem o cerca.

Boa tade a todos

Paula Santos

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