quarta-feira

Quando parei de ler
as tuas palavras
olhei para fora
e vi o vento vergar as plantas
enquanto se iniciava a trovoada
deixando o céu cor de chumbo
naquela paisagem dolorosa
as tuas palavras
pareciam gotas de gelo
a cairem-me na face
numa despedida só tua
impassível
que abria feridas
e soltava as lágrimas
encostei a face
à minha mão impotente
tentando não ler
o que me escrevias
fazer daquelas palavras
umas outras
que queria ler
mas tu saíste
devagar tudo foi ficando cinza
e as minhas mãos
cairam impotentes
num gesto resignado
sentimentos baralhados
contraditórios
um frio estranho apossou-se de mim
ao mesmo tempo
que a minha alma gelava
como se a distância que nos separa
apagasse a vida dentro de mim
encostei o meu rosto
nas minhas mãos crispadas
tentando deter o momento
parar a agonia
parar o mundo
mudar a minha vida
mudar este dia
mas tudo foi em vão
porque de repente
nada mais era possível
um instante
só um instante apenas
arrancou-te do meu sonho
desapareceste
engolida pela garganta voraz
do tempo
e assim
nessa loucura dolorosa
nesse sonho
que lutava
assumiste a proporção
de um longo momento
onde muitos momentos ficaram
mas uma certeza
fica comigo
o nunca mais
vai render-se
ao para sempre

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