quinta-feira


Quando de noite não consigo dormir, o que não é raro, aproveito para questionar Deus sobre algumas coisas. Não que eu costume ser incorfomado com a vontade dele, mas nalgumas horas apetece-me perceber o porquê de tanta coisa. Porque sofrem crianças que nunca fizeram mal a ninguém? Cada vez que visito o «acreditar» venho de lá doente, por ver nos olhos daquelas crianças a inocência ser suplantada pela dor. Um dia em que lá fui, vi uma criança com um ano, cabeça toda rapada, perguntei à mãe o motivo
e ela disse-me que o bebé sofria de cancro e a falta de cabelo era devida aos tratamentos. Esqueci que estava ali para levar algum conforto e desabei. Por isso me pergunto e questiono porque motivo devem crianças inocentes enfrentarem um tal problema que acarreta tanto sofrimento. Questiono o porquê de tantas pessoas com fome, de tantas pessoas descrentes, de tantas pessoas sem tecto. As minhas conversas com Deus, ou melhor, o meu monólogo com ele, faz-me querer saber o porquê de tudo. Pareço uma criança pequena a questionar o pai. Eu sou um sonhador sim, um idealista, e custa-me ver tanto sofrimento ai fora. E pergunto a mim mesmo se não poderei fazer algo mais para mudar isso. É difícil, mas se todos acharmos difícil e virarmos as costas nada se fará. Para quem não sabe , a minha vida é no Brasil, estou aqui apenas em período de ressaca, como costumo dizer. E no Brasil o fenómeno de meninos de rua é muito intenso. Uma noite, eu estava na minha casa e resolvi caminhar pelo calçadão. Para quem não sabe, o calçadão é uma espécie de passeio marítimo. De dia enche de turistas , de camelôs e de vendedores de côcos. mas durante a noite é um local onde esses meninos se reunem e assaltam turistas. Um dos locais, infelizmente. Durante o passeio fui assediado por um grupo de uns dez, nesses passeios não levo relógio, nem objectos de ouro e evito roupas ou ténis de marca. Mesmo assim o garoto mais velho aproximou-se de mim- E perguntou se eu tinha cigarros. Respondi que sim e dei-lhe o maço de cigarros quase completo e um isqueiro. Deixaram-me ir embora. Dei o meu passeio e quando voltei, o grupo de miudos tinha aumentado. Um deles aproximou-se e pediu-me a t-shirt. Sei que não vale a pena dizer que não e ia tirar. Quando o miudo que tinha falado comigo se aproximou e disse:- Não faz isso , ele nos deu cigarros há pouco. Então o círculo que se fechará em torno de mim abriu-se e o tal miudo acompanhou-me até ao portão do condomínio, segundo ele, para que mais ninguém me incomodasse. Então eu sou obrigado a pensar, que basta tão pouco para tocar o coração daqueles meninos. E questiono Deus, sobre o porquê do sofrimento daquelas crianças e mais do que isso, questiono se eu e todos nós, não seremos também um pouco culpados. Se não bastaria cada um de nós dar um pouco do que nos sobra, para tornar melhor a vida desses meninos. Nas minhas noites insones continuo a questionar Deus sobre tanta coisa. Sei que um dia me irei encontrar com ele, e que talvez nessa altura obtenha as minhas respostas. Mas nesse dia será tarde para mudar qualquer coisa aqui. Por isso a minha eterna pergunta: - Porquê Pai?

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