sexta-feira

Definitivo como tudo o que é simples
nossa dor não advém das coisas vividas
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram

Sofremos porquê?

porque automaticamente esquecemos

o que foi desfrutado e passamos a sofrer

pelas nossas projecções irrealizadas

por todas as cidades que gostariamos de ter

conhecido

ao lado do nosso amor e não conhecemos

pelos filhos que queriamos ter tido juntos

e não tivemos

por todos os shows, livros e silêncios

que queriamos ter compartilhado

e não compartilhamos

Pelos beijos cancelados para a eternidade

sofremos, não, porque o nosso trabalho é desgastante

e paga pouco

mas por todas as horas livres que deixamos

de ter,

para ir ao cinema, para conversar com um amigo

para nadar ou para namorar

sofremos, não, porque a nossa mãe

é impaciente connosco

mas por todos os momentos em que podiamos

estar-lhe confidenciando as nossas angústias

se ela estivesse interessada em nos compreender

sofremos, não, porque o nosso time perdeu

mas pela euforia sufocada

sofremos, não porque envelhecemos

mas porque o futuro está nos sendo retirado

impedindo que mil aventuras nos aconteçam

todas aquelas com as quais sonhamos

e nunca chegamos a experimentar

Porque sofremos tanto por amor?

O certo seria a gente não sofrer

apenas agradecer por termos conhecido

alguém especial que gostou de nós

e gerou um sentimento intenso

e nos fez companhia por um certo tempo

um tempo feliz

Mas como aliviar a dor do que não foi vivido?

A resposta é simples com um verso

Se iludindo menos e vivendo mais

a cada dia que vivo, mais me convenço

de que o desperdicio da vida

esta no amor que não damos

nas forças que não usamos

na prudência egoísta que nada arrisca

e que, esquivando-se do sofrimento

perdemos também a felicidade

a dor é inevitável

o sofrimento é opcional

Texto de Emílio Moura



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