quarta-feira

É tão facil


É tão facil julgar, meu Deus como é facil. Eu também cometia o mesmo erro. Para mim era facil julgar, apontar o dedo, acusar. Eu nem procurava saber motivos, não se enquadrava nas minhas normas, naquilo que eu achava justo, eu julgava, como se a minha opinião fosse lei, como se eu fosse um exemplo que todos devessem seguir. Durante muito tempo procedi assim, levianamente julgando, sentindo-me acima do bem e do mal. Porque eu nunca tinha sido julgado. Nascido no seio de uma família com dinheiro, frequentando os melhores colégios, depois uma das melhores faculdades do mundo, tendo sempre o carro topo de gama da minha marca preferida, usando sempre um perfume caro, roupas com marca visível, quem me julgaria? Ninguém. Eu estava isento de defeitos aos olhos das pessoas. Até que compreendi que afinal não me julgavam, mas não por mim e sim pelo que representava. Comecei a achar que se a amizade, os elogios, as palavras, nada era sincero, também não o seria o amor que me ofereciam, essa dúvida ficou gravada a fogo no meu coração. Não podia testar-me, largar tudo, sair por ai com um carro a cair aos pedaços, roupas velhas e morar numa cabana. Isso eu não podia fazer. Até que um dia me ocorreu que poderia fazer um teste sim. Tentar fazer-me amar por aquilo que sou interiormente e não pela aparência exterior. Não vou entrar em detalhes de como o fiz, mas consegui fazê-lo. Durante muito tempo consegui mostrar a minha alma e o meu coração sem mostrar mais nada. É difícil, complicado, mas embora não tendo conseguido provar a mim mesmo o que queria, uma lição eu aprendi. Despido dos meus elegantes fatos Armani, sem mostrar a imponência do meu carro, sem o aroma suave do meu carissimo perfume, sem o tom dourado do meu cabelo, sem o olhar que dizem bonito, sem O meu rosto cuidado, eu ficava expôsto a julgamentos. Por mais que mostrasse a minha alma, mostrasse o coração, por mais carinho e segurança que transmitisse as acusações vieram. Muitas ridículas, sem nexo, outras que feriam, outras que me faziam rir. Pela primeira vez senti-me no mesmo patamar que aqueles havia julgado, criticado, condenado sem querer saber motivos ou razões. Pela primeira vez descobri que ainda que o meu coração encerre um tesouro de ternura, que a minha alma seja doce, suave, nada tem valor sem o resto. Não fui capaz de alcançar assim uma palavra de amor. Compreendi que eu valho apenas por aquilo que sou exteriormente e como eu odeio isso. Desde menino sempre ligaram para o meu aspecto exterior sem nunca darem a minima importância para o que eu queria e sentia. Esforçava-me por ser bom aluno e quando trazia as notas, geralmente boas, a minha mãe mostrava-as orgulhosa às amigas. E elas respondiam, ai que lindo menino. Com uns olhos tão bonitos. E eu pensava, ai que caraças, andei a estudar como um condenado para ter boas notas e estas olham-me para os olhos. Ao longo da vida sempre foi assim, nunca ninguém parou para pensar naquilo que quero, no que preciso. Só me elogiavam o que era visível e ai de mim, se ousasse dizer que não era feliz. Tinha que o ser, segundo os outros eu tenho tudo para ser feliz. E eu pergunto a mim mesmo, que bases têm eles para saberem onde esta a minha felicidade, se eu tenho motivos ou não para ser feliz. E ainda tenho que suportar muitas hipocrisias e muitas invejas mal encapotadas. Então aprendi e hoje sei, que sem o meu carro, as minhas casas, tudo o resto, eu não sou nada. Coração sincero, alma pura? Quem liga para isso? Ninguém, pura e simplesmente porque as pessoas esqueceram o dom de sentir. Não sabem como é bom receber carinho, senti-lo, tê-lo na sua forma mais pura, mais intensa e só depois, quando absolutamente saciados, ai sim, voltar à realidade, às roupas, ao carro, ao rosto, a tudo que não sou eu, porque eu sou o meu coração e a minha alma, o meu corpo é apenas uma moldura bonita, onde eu me escondo por trás de um sorriso. E com tudo isto aprendi a nunca mais julgar ninguém, procuro entender, porque não quero nunca mais cometer o erro de ser injusto. Quem quiser julgar alguém que pense bem primeiro e que pelo menos use de tacto nas palavras. Acusar é um acto grave, vamos tentar apenas compreender e amar o próximo, porque quem atirar a primeira pedra a alguém que desconhece, poderá vê-la cair nas suas próprias janelas.

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