sexta-feira


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
do que os homens, morder como quem beija
é ser mendigo e dar como quem seja
rei do reino de áquem e de além dor

É ter de mil desejos o esplendor

e não saber sequer que se deseja

é ter cá dentro um astro que flameja

é ter garras e asas de condor

É ter fome, é ter sede de infinito

por elmo, as manhãs de oiro e cetim

é condensar o mundo num só grito

E é amar-te assim perdidamente

é seres alma alma e sangue e vida em mim

e dizê-lo cantando a toda a gente

Este é mais um soneto da poetisa Florbela Espanca. Desde sempre me identifiquei com a maioria dos seus poemas. Quase todos são tristes, frutos de uma alma agitada por muitas dores e que não sabendo como vencê-las, optou pelo suicídio. Dei-me ao trabalho de fazer um estudo ligeiro sobre a vida desta mulher cujas palavras me tocam e comovem. Acabei por descobrir que foi uma pessoa muito sofrida e isso é notório em cada um dos seus sonetos. Mesmo assim, com esse lado quase trágico, esses sonetos têm o poder de me encantarem, de me transmitirem uma grande doçura. Esta seria uma mulher que eu teria adorado ter o privilégio de conhecer. Ela usava as palavras de forma a passar-nos na medida exacta toda a força dos seus sentimentos. Foi uma mulher se amores incompreendidos e que soube expressar como ninguém o sentimento que lhe ia na alma.

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