quarta-feira

Hoje sinto-me vazio. É raro falar de mim na primeira pessoa, aqui neste blog, mas preciso de o fazer. Acho que vivo fora do mundo, num mundo mais bonito que devo ter criado para mim. Engraçado que eu ainda confio nas pessoas, ainda agarro uma mão estendida, ainda confio em valores que parecem ultrapassados , como o carinho, a amizade, a confiança, o amor. Sempre desde criança me incutiram esses valores e aprendi que sem eles a vida não vale a pena. Quando, após a morte de meu pai me vi lançado no mundo dos negócios, para o qual eu não estava minimamente preparado, pensei que nunca na vida abriria mão dos meus valores mesmo que parecessem inadequados. Entrei nesse mundo que não é fácil, sempre apoiado nesses valores, cai muitas vezes sim, confiei em pessoas que me trairam, aceitei ser amigo de quem apenas me iludia com uma amizade falsa, amei pessoas que me trairam, que me magoaram e muitas vezes dei carinho a quem o não merecia. Mas e dai? Por isso deveria abrir mão dos meus valores e entregar-me a outros que detesto? Não. Por cada amigo falso, conheci muitos verdadeiros amigos, por cada amor que me traiu, conheci outros que o não fizeram, por cada pessoa que traiu a minha confiança, vieram muitas outras leais. E nunca me arrependi de não ter cedido nem um pouco nos meus valores morais. Por causa disso já me chamaram parolo, bota de elástico, ultrapassado, mas isso nunca me afectou. Mesmo nos negócios para os quais não tenho muito jeito, consegui rodear-me de um grupo de colaboradores fieis, pessoas a quem confiaria a minha vida. Procuro ter poucos amigos, mas bons e graças a Deus consigo. Posso dizer que me sinto protegido, que vivo num mundo à parte só meu, onde muitos dos actuais valores negativos que parecem reger a humanidade não entram. E sinto-me mal, quando deparo sobretudo com a desconfiança. Quando vejo que neste nosso mundinho as pessoas têm como valor principal desconfiar das outras e pergunto-me porquê. Será que o ser humano está de tal modo falho de valores, está de tal modo despido de moralidade que perdeu a capacidade de confiar no seu semelhante. Será que há pessoas sem caracter que só conseguem enxergar os outros à sua imagem e semelhança? Será que o mundo só se rege pela desconfiança, pela lei do mais forte, pelo ardil, pela manha? Onde foi que o ser humano se perdeu? E será que vale a pena viver acreditando que todos lá fora nos mentem, que todos se puderem nos passarão uma rasteira? Será que vale a pena viver assim? Não acredito. Eu dou graças a Deus por ser capaz de me entregar e de confiar. Para mim todo o ser humano é confiável até prova em contrário. Quando eu confio em alguém e a minha confiança é traida, ai sim, peço contas, faço com que essa pessoa seja responsabilizada. Todos temos que ser responsaveis pelos nossos actos. Mas mesmo assim continuo a confiar nas outras pessoas, não é porque cai ao sair de casa que vou deixar de ir à rua. Eu gostava que toda a gente entendesse que viver em plena desconfiança dos outros envenena qualquer coração. Normalmente os mais desconfiados, são aqueles que têm a mania que são espertos e coitados, em virtude disso deixam que a vida lhes passe ao lado. Querem defender-se contra tantos perigos imaginários que a vida real lhes escapa. Como dizia a minha avó :- Só não se fia quem não é de fiar. Regra geral vemos os outros à nossa imagem e pensamos que os outros farão , aquilo que nós sabemos que seriamos capazes de fazer. É muito triste viver assim. Que tal aprendermos a confiar nos outros e se nos derem motivo para isso, se nos trairem ou enganarem, ai sim pedimos responsabilidades. Pode parecer que não, mas não vivemos num mundo sem lei. Se alguém trai, se alguém engana, então accionemos os meios necessários para que quem errou seja punido. Mas só quem errou. Não vamos desconfiar da humanidade toda só porque uma pessoa nos enganou.Sem confiar nos outros não vale a pena viver.Vamos aprender a confiar nos outros para que sejamos também dignos de confiança. Seria bom aprendermos a viver com o coração aberto aos que passam pelas nossas vidas.

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