quarta-feira



Hoje que realmente não me sinto muito bem e que definitivamente decidi não fazer nada, vou aproveitar o tempo livre para falar num amigo.Não é um texto fácil para mim, porque por omissão deixei de fazer muito do que poderia ter feito. Numa tarde de Agosto do Ano passado, o meu telefone tocou insistentemente.Lembro-me que me levantei contrariado da poltrona e fui atender. Quando ouvi a noticia que me davam, os meus joelhos dobraram e tive que me segurar à secretária para não cair. Tinha acabado de saber que um dos meus melhores amigos , havia falecido vitima de um acidente de viação. Depois de desligar o telefone fiquei meio perdido, com a sensação de que o meu mundo acabara de cair. Sentei-me sem forças na poltrona e trouxe de volta todas as recordações do meu amigo. Recordei os nossos tempos de faculdade, as nossas bebedeiras, as nossas conversas sempre animadas, as confissões dos nossos namoros, a cumplicidade que nos unia, as nossas confidências comuns, as cábulas que em conjunto preparavamos. Lembrei do riso dele, um riso alegre, fácil, comunicativo, que me envolvia como uma nuvem dourada de sol. Lembrei da alegria dele na nossa formatura, dos sonhos que idealizamos, da nossa despedida depois de anos estudando juntos. Recordei o seu rosto alegre, simpático, os seus olhos meigos, que deixavam transparecer toda a amizade. Durante a vida, essa amizade dele por mim manteve-se. Cada vez que eu tinha um problema ele ligava-me, ligações que eu geralmente não retornava. Lembro do meu telemóvel cheio de sms dele querendo saber de mim, sms a que poucas vezes eu respondi. Lembro dos emails que enchiam a minha caixa de correio, os quais muitas vezes despejei sem ler. Foi ele a primeira pessoa que vi quando acordei do coma provocado pelo meu problema de saúde. Com ele chorei quando a minha esposa morreu e dele ouvi incentivos e palavras de carinho. Foi no ombro dele que encostei a minha cabeça e chorei as lágrimas amargas de um noivado desfeito após o meu problema de saúde. Apesar de ele estar sempre presente quando eu precisava, não me lembro nunca de ter tomado a iniciativa de lhe ligar só para lhe dizer que ele era quase um irmão, para lhe dizer que tinha saudades, que podia contar comigo. Quando a minha consciência apertava , eu desculpava-me com o trabalho, a minha falta de tempo. Podia ter escrito uma mensagem bonita e enviar-lhe para lhe retribuir as dezenas de emails, mas eu nunca tinha tempo. Raramente aparecia na casa dele quando me convidava, muito menos apareci de surpresa, claro que era impossível. E tempo? Era muito raro ele desabafar comigo, talvez porque eu sempre ocupado não lhe dava essa oportunidade. Talvez eu fosse egoísta ao ponto de só ver nele um confidente, talvez quisesse acreditar que ele nada teria para me contar. Nunca liguei importância ao hábito que se tornou constante de beber demais, porque quando estava bebado era ainda mais alegre, contava-me piadas, sorria mais. Só depois da sua morte eu sinto vergonha do meu pouco caso, da minha incapacidade de estender a mão a quem sempre ma estendia. Agora o remorso não interessa mais, mas quem sabe se ele ainda estaria aqui se eu tivesse sido mais presente, mais atento! Talvez se eu tivesse largado um pouco dos meus negócios e tivesse prestado mais atenção a ele. Talvez se eu tivesse cobrado quando o via bebado, ele não tivesse continuado nesse caminho até perder a sua vida conduzindo um carro sem controle dos seus actos. Eu imagino que ele bebia porque se sentia sozinho, sem que eu retribuisse ao menos um pouco de toda a atenção que ele me dava. Talvez os emails que tanta vez despejei sem ler fossem pedidos de ajuda que nunca sequer vi. Esses emails que levianamente mandei para o lixo ficaram para sempre gravados na minha consciência. Não posso agora fazer-lhe todas as perguntas que gostaria. Tudo isso porque eu achava que não tinha tempo. Quando não procuramos valores para a nossa vida que não sejam os materiais tornamo-nos escravos. Agora aprendi a nunca mais despejar emails no lixo sem os ler. Procuro responder a todos os sms nem que seja para dizer:- Bom dia. Não deixo passar em branco os aniversários porque aprendi que amanhã poderei já cá não estar para lembrar os meus amigos. Aprendi a dar muito mais valor à minha família a quem me prende laços eternos. Aprendi que momentos lindos raramente se repetem e que devemos vivê-los o maior tempo possível. Procuro sorrir mais a quem passa na minha vida, porque o sorriso é um tesouro que se renova quando é distribuido. Costumo pedir aos meus amigos que procurem ter um tempo livre para os amigos e familiares. Todos os dias nos devemos levantar com a vontade de fazer alguém feliz. Não devemos esperar perder quem amamos para compreendermos como essa pessoa nos era querida, como nos faz falta ou como nos fazia feliz. Na minha vida, principalmente depois de ficar doente, todos os dias ao anoitecer penso que o amanhã poderá nunca chegar para mim. E se o meu amanhã não chegar, nunca poderei dizer a todos os familiares e amigos como os amo, por isso tenho que fazer isso hoje. Quero que todos os meus amigos saibam que são muito importantes para mim.!!!

(Este texto é uma homenagem ao meu querido amigo, Carlos Eduardo Drummond de Carvalho, que faleceu dia 18 de Agosto de 2005).

A ti amigo peço perdão pelo descaso, pela falta de atenção, pelo que recebi e não dei. A tua morte foi a mais dolorosa de todas as lições de vida para mim. Até um dia destes amigo!!!

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