sexta-feira

De repente dei-ne conta de que o meu tempo já não é tão corrido, começo a fazer pausas longas para almoçar, para descansar e sinto que teoricamente estou a tentar tirar-lhe a importância que tinha. Durante muitos anos a minha vida foi regida pelo tempo, acima de tudo pela necessidade absoluta de não perdê-lo, de o transformar numa mais valia. Durante anos eu fui escravo do tempo e logo eu que sou apologista da liberdade absoluta. Eu corria debaixo do jugo implacável do tempo, sem ter outra preocupação que não fosse esticá-lo ao máximo. Tenho um amigo que me dizia que eu deveria ter um dia de 25 horas no minimo. E era verdade. Eu corria de um lado para o outro para chegar a tempo a todos os compromissos e infelizmente para a minha família eu nunca tinha tempo. Porque no fundo eles não eram um compromisso assim tão importante. Não tanto como os outros meus compromissos inadiáveis, afinal , eles estariam sempre ali à minha espera. Quando me dei conta alguns já não estavam mais e quando quis reparar o erro para não variar não tive tempo. Eu não tive tempo de acompanhar os ultimos meses de vida da minha mãe, não tive tempo de ouvir as ultimas palavras de meu pai e não fui eu quem escutou a primeira palavra da minha filha. Tudo isso porque eu não tinha tempo. Porque eu roubava à minha familia cada minuto que podia tirar, e mesmo assim continuava sem tempo. Percebi que nunca o teria, porque por cada minuto livre eu procurava um compromisso, e assim eu jamais teria tempo. Tive que perder muitas coisas, inclusivé a saúde para aprender a gerir o meu tempo. Agora, embora trabalhe, esqueci o ritmo alucinado, os segundos todos preenchidos. Agora eu já tenho algum tempo. Realmente firmei um compromisso com o tempo, ele deixa-me em paz e eu não corro atrás dele. Um dia destes nós encontramo-nos, finalmente. e ai sim terá sido o meu tempo.

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