segunda-feira

Solidão


A solidão é algo que sinto muitas vezes, independentemente de estar acompanhado ou não. Até certo ponto eu gosto da solidão, procuro-a. Mas apenas por breves períodos. Há alturas na minha vida em que eu procuro isolar-me, estar só, para assim poder fazer uma viagem ao interior de mim mesmo e poder reencontrar-me. Essa solidão é boa, profícua, porque dela renascem muitas certezas e uma vontade enorme de lutar e de colocar tudo no lugar. Mas há outros tipos de solidão que temo e já senti. Existe uma solidão dolorosa no amor não correspondido ou mal correspondido. Quando se dá tudo e nada se recebe em troca. Quando apanhamos no firmamento a mais bela estrela e a ofertamos ao ser amado, que a olha como se fosse apenas um pobre bocado de vidro sem vida. Quando damos o coração por inteiro e não recebemos mais que migalhas. Quando dizemos que amamos verdadeiramente e recebemos em troca declarações truncadas ou simplesmente mentirosas. Quando estendemos a nossa mão repleta de amor e esperamos por uma outra mão que nos chega cheia da nada. Quando enchemos o coração de amor e uma palavra maldosa o esvazia num segundo. Essa é uma solidão dolorosa, feita de mentiras, dores, desilusões. Existe ainda outro tipo de solidão. A solidão que se baseia na incompreensão. Essa pode surgir no meio de um grupo enorme de pessoas, no meio de uma festa, seja onde for. Na ultima vez que visitei a Grécia decidi fazer um cruzeiro pelas suas ilhas. O navio era lindo, confortável, cheio de gente bonita. Almocei na mesa do capitão, disse umas piadas a umas miudas inglesas, brinquei com umas crianças, fiz de tudo para esconder de mim mesmo o sentimento amargo que se apossava de mim. Mais tarde fui até à amurada do navio, fiquei a ver as ondas que corriam por aquele mar cor de turquesa, e que se desfaziam contra ele num suspiro doce de espuma e me salpicavam docemente o rosto. Ao longe eu escutava os risos dos meus colegas de viagem, a musica que fazia com que pares abraçados começassem a dançar. Tudo estava em festa, menos eu. Senti algo quente a escorrer-me pelo rosto, eram lágrimas que me aliviavam a opressão que sentia. Tudo ali era lindo, mas nada daquilo enchia o meu coração. Se eu falasse com um dos passageiros daquele cruzeiro, desabafasse, dissesse o que sentia, certamente seria olhado como doido. Afinal todos os que ali estavam tinham obrigação de se sentirem felizes. A bordo de um navio luxuoso, alimentação de primeira, diversão continua, mulheres lindas e perfumadas e uma paisagem de sonho. Quantas pessoas se podem dar ao luxo de embarcar naquele navio? Poucas certamente. Mas como explicar que aquele luxo todo não me dizia nada, que tudo aquilo me deixava vazio? Como explicar que trocaria tudo aquilo por um abraço sentido de alguém, por um beijo longo, sincero e apaixonado? Como explicar que trocaria todos os sorrisos daquelas mulheres, por uma palavra sincera de amor? Não tinha como explicar. E no meio de tanta gente feliz, eu era o unico que me sentia triste, e tinha de disfarçar essa tristeza. E nessa altura eu conheci bem o tipo de solidão que nasce da incompreensão, da distância imensa que nos pode separar de alguém, que sorri mesmo ao nosso lado!!!

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