sábado

Papoila versus toquinho de vela

Um dia uma amiga disse-me que gostava de ser uma papoila. Na hora achei estranho. Papoila? Confesso que me ri. A imagem de uma papoila no meio de um campo, não me parecia minimamente sedutora. Mas hoje reavaliei essa imagem. Chove intensamente e o vento sopra pelas frinchas semi-abertas da minha janela. E a imagem de uma papoila vigorosamente agarrada à terra, sacudida por mil oscilações, parece-me mais familiar. De repente dou-me conta que também eu sou como uma papoila. Agarrado à vida, tentando que o vento da desilusão não me pegue e não me arranque do solo, expondo as minhas raizes já tão debeis. Tal como a papoila deve sentir as gotas de chuva percorrendo as suas frageis pétalas, eu sinto o frio da desilusão deslizar e colar-se na minha pele. E tal como ela a pouco e pouco vou perdendo pétalas arrancadas pelo vento inclemente de um passado que julguei belo, terno e seguro. Que estranho, porque mesmo com as pétalas semi-arrancadas, mesmo com as raizes abaladas, eu seguro o sonho, como a papoila segura tenazmente a sua frágil vida. Nunca pensei que uma imagem poética, como uma papoila presa à terra, no meio de ervas daninhas ou de searas de trigo pudesse despertar esta empatia no meu coração. Confesso que sempre passei pelo meio de campos repletos de papoilas sem nunca ter parado um minuto sequer para as olhar. Aquele fulgor violento, feito de um vermelho intenso e de um laranja quente, entrava-me na retina como uma imagem já vista milhares de vezes, que nada despertava em mim. Quantas vezes terei passado pelo meio delas, e pisado muitas, sem sequer me deter para pensar no que fazia. Outras vezes certamente, parei no meio delas, com a cabeça cheia de negócios, de amores, de viagens e sem pensar estendi a mão e colhi uma. Para ficar olhando-a sem a ver e calmamente arrancar as suas pétalas sem olhar, como num ritual destruidor. Deixando somente o tronquinho frágil que atirava longe sem pensar. Hoje que me sinto no papél dessas frageis flores, hoje que uma mão vinda do nada arrancou as minhas (pétalas) E eu fiquei somente o tronco, vou lançar as raizes no solo firmemente para que as pétalas voltam a ressurgir. Uma papoila assassinada morre para sempre, mas um sonho morto, reinicia um novo ciclo e renasce. Um dia visitei um Pais Africano e vi uma mulher pobre que tinha sido atacada em criança pela polomielite e tinha ficado com uma deficiência motora grave. Por isso deslocava-se numa velha e desconjuntada cadeira de rodas. Mais tarde tinha-lhe aparecido a diabetes e sem atendimento médico adequado acabara por cegar. E com o passar dos anos, uma doença a nivel das articulações tinha-lhe deformado as mãos. O chefe da aldeia mostrou-ma como uma imagem de dor e sofrimento. Confesso que me aproximei dela com muito medo, sem saber onde ir buscar palavras para lhe dizer. Mas quando me sentiu aproximar ela estendeu-me as mãos deformadas que agarrei com ternura e sorriu-me. Eu senti formar-se um nó na garganta que me apertava e quase me impedia de respirar. Tentei sorrir também para aqueles olhos mortos e sem me conter, perguntei:- Como pode a Senhora sofrendo tanto, manter assim esse ar feliz?
Ela (olhou-me) sem ver, procurando talvez no som da minha voz que a custo saía, sentir todo o meu medo, incerteza e amargura. Então respondeu-me: - Sabes meu filho, Eu nasci normal e corria por esses campos em liberdade, com o passar do tempo Deus tirou-me tudo. O andar, o ver e depois até as minhas mãos deixaram de ser úteis. Mas Deus deixou-me uma coisa importante, a vida. E se Deus me deixou apenas um toquinho de vela, eu tenho que a acender para que este pequeno toquinho possa ainda iluminar a vida de alguém-
Claro que ela não utilizou exactamente estas palavras, era uma camponesa inculta, mas o sentido das que utilizou era este. Naquele momento senti uma vergonha enorme. Eu que tenho tudo, olhos perfeitos, que posso caminhar, que tenho mãos perfeitas, que posso abraçar o mundo num segundo, eu, sentia-me triste, infeliz, inseguro. Com o coração tumultuado porque terminara um namoro, porque a cotação da minha empresa desceu, porque guardei acções que entraram em queda, porque me doia a cabeça, porque estava calor, por tantas razões que não eram nada. Problemas mesquinhos se comparados à cruz daquela mulher que mesmo assim sorria. Ergui a cabeça e esvaziei o meu coração da dor. Que se lixasse o final do namoro, milhares de outras mulheres existiam no mundo, cada uma contendo no coração um milagre de amor e ternura, que se lixasse a cotação da minha empresa, os negócios são mesmo assim, feitos de altos e baixos, que se lixassem as acções que tinham entrado em queda, voltariam a subir e ainda que não voltassem não seria o fim do mundo. Se essas preocupações cessassem a minha dor de cabeça passaria, e eu podia erguer o rosto áquele sol quente daquele Pais tão bonito. Sorri e perante o olhar espantado do chefe da aldeia, abracei e beijei aquela aldeã. E nesse abraço senti o calor do corpo dela repleto de ternura. Nunca mais a vi e provavelmente nunca mais verei, mas cada vez que fico triste, penso naquele toquinho de vela. Eu sou ainda uma vela quase inteira, muito longe de ser um toco, e tenho a obrigação de a acender e iluminar o meu caminho de luz. Vela ou papoila, eu vou erguer a cabeça e reconstruir o meu Mundo, um Mundo como sempre tive até há pouco tempo, um mundo claro e luminoso, onde não existam jogos, desconfianças e mentiras. Onde cada pessoa que me olhe me mostre exactamente o que sente. Onde cada sorriso não esconda um mundo de mentiras que temo descobrir. Onde cada voz tenha apenas o som da ternura. Onde cada rosto seja um espelho da alma.

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